terça-feira, 20 de junho de 2017

Silêncio. É Sábado Santo por Pedrógão Grande

(adaptação de um texto publicado neste blogue, com outro título, a 19 de Abril de 2014)

O dia de Sábado Santo é, na liturgia cristã, o dia do grande silêncio. Uma mãe perde o seu filho, uma mulher perde o seu chão, mulheres e homens perdem o(s) seu(s) amigo(s), roubado(s) de forma violenta. A experiência da perda faz parte da humanidade que somos e ela não podia deixar de integrar, por isso, o cristianismo ou qualquer outra fé religiosa.
Mas este tem de ser também um dia de uma esperança silenciosa e confiante. De quem sabe que o abraço do outro, a presença silenciosa, a palavra reconfortante, o trabalho para dar fim à destruição, não são gestos em vão. E que a sua vontade e a sua convicção serão factor de transformação da realidade, contra toda a desesperança e o sem sentido que a vida parece ser nestes momentos.
Uma das peças musicais que melhor traduz esta experiência da perda, por um lado, e da esperança confiante, é o Ave Maria, de Giulio Caccini (1550-1618), um dos pais da ópera. Nela se consegue falar do despojamento a que tantas vezes somos forçados, mas também da redenção de que somos capazes, quando a nossa vida se firma na justeza e na confiança dos gestos do outro.
A interpretação mais sublime desta peça é a que o trompete de Henry Parramon e o órgão de Jean-Michel Louchant nos oferecem no disco Louanges a Notre Dame, publicado em 2001 pela SM. Quando os dois instrumentos se juntam, deles jorra a alegria, como escreve Philippe Barbarin, então bispo de Moulins e actual arcebispo de Lyon e cardeal. Melhor: os dois instrumentos traduzem musicalmente o sublime, transfigurando a composição, despojando  a música de artifícios e reduzindo-a à sua máxima limpidez. A sobriedade melódica do trompete, em diálogo com o recato do órgão, levam-nos à emoção plena e inolvidável (que se repete no disco com a criação Je vous salue, Marie, do próprio Parramon).
Na impossibilidade de encontrar disponível essa recriação, para aqui a reproduzir, fica um vídeo onde a base melódica é o piano e que se aproxima muito da proposta de Parramon e Louchant.


(Outra versão com trompete, que também consegue uma grande força emotiva, é a cantada por Irina Arkhipova, no vídeo que pode ser encontrado aquiuma versão sinfónica, com coro, desta mesma peça, pode ser vista e ouvida aqui)



sábado, 17 de junho de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (1) – Visões, não aparições – pôr Fátima no sítio

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.
Começo por duas entrevistas de D. Carlos Azevedo a propósito do debate sobre visões ou aparições, e por um texto que publiquei na revista digital Forma de Vida, do programa em Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Este artigo serve de porta de entrada a vários outros, pois nele sintetizo algumas das questões que abordei, de forma mais específica, em outros artigos, que serão por sua vez publicados no RELIGIONLINE, nos dias 13 dos próximos meses, até Outubro.

O Papa Francisco a pôr Fátima no sítio


(Foto: a Cruz Alta, de Robert Schad; foto reproduzida daqui)

Foi o próprio Papa Francisco que, com aquilo que disse e fez em Fátima ou a propósito da sua viagem ao santuário português, ajudou a repor no lugar vários aspectos da devoção mariana e da própria mensagem de Fátima. Na conferência de imprensa no voo de regresso a Roma, a propósito das «aparições» que ocorrem em Medjugorje (Bósnia), desde 1981, o Papa afirmou: «Eu, pessoalmente, sou mais “ruim” [do que o relatório inicial preparado pelo Vaticano]: prefiro Nossa Senhora mãe, nossa mãe, e não uma Nossa Senhora chefe dum departamento telegráfico que todos os dias, a determinada hora, envia uma mensagem; esta não é a Mãe de Jesus.»
É fácil adivinhar que, se o fenómeno de Fátima ocorresse hoje, Francisco colocaria reservas às aparições com data marcada uma vez que, também na Cova da Iria, a visão dos três pastorinhos acontecia num dia previsto. Mas este é um pormenor, porque o mais importante é o Papa ter dito que Fátima tem uma mensagem de paz e que ele veio como peregrino – duas dimensões fundamentais da relação das pessoas com o santuário.
(O texto pode continuar a ser lido aqui)

D. Carlos Azevedo: “Em Fátima não houve aparições!”

“Em Fátima, não houve aparições”, defende, em entrevista a Manuel Vilas Boas, da TSF, o bispo e historiador Carlos Azevedo, actualmente a trabalhar como delegado do Conselho Pontifício para a Cultura, do Vaticano. A mãe de Jesus, explica, nunca esteve, fisicamente, em qualquer parte do mundo. Por isso, não se deve falar em aparições mas visões.
Carlos Azevedo publicou recentemente o livro Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã, no qual segue a tese do então cardeal Joseph Ratzinger. O futuro Papa Bento XVI escreveu, no ano 2000, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina, o Comentário Teológico sobre o segredo de Fátima. No texto,  distingue exactamente aquelas duas perspectivas. Retomando no livro essa distinção, o bispo defende, nesta entrevista, que se deve passar a usar mais rigor na linguagem.  
Um mês depois da visita do Papa Francisco ao santuário da Cova da Iria, o bispo analisa ainda, na entrevista, os comportamentos do Estado português e da Igreja Católica e diz que não prevê regressar, definitivamente, a Portugal, nos próximos anos.
A entrevista pode ser ouvida aqui.

A partir do mesmo livro, uma outra entrevista publicada no Público, ainda em Abril, pode ser lida aqui.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O primeiro Dia Mundial dos Pobres: “O amor não admite álibis”

“O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres.” Esta é uma das afirmações centrais da mensagem do Papa Francisco para o I Dia Mundial dos Pobres, por ele instituído na carta Misericordia et miseracom que assinalou o final do ano da misericórdia, em Novembro de 2016.


(foto reproduzida daqui)

O texto é significativamente datado de ontem, 13 de Junho, memória de Santo António, e o título – “Não amemos com palavras, mas com obras” – é retirado da primeira carta de São João: “Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade”. E, ao recordá-la, o Papa sugere que “a misericórdia, que brota por assim dizer do coração da Trindade, pode chegar a pôr em movimento a nossa vida e gerar compaixão e obras de misericórdia em prol dos irmãos e irmãs que se encontram em necessidade”.
No documento, o Papa insiste no “escândalo” da pobreza, pede uma “nova visão da vida e da sociedade”, diz que os pobres “não são um problema” mas antes um recurso para “acolher e viver a essência do Evangelho”, aponta sugestões concretas para viver o Dia Mundial e apresenta o Pai Nosso como uma oração que implica “partilha, comparticipação e responsabilidade comum”.
A data escolhida pelo Papa para este Dia Mundial dos Pobres é o XXXIII Domingo do tempo comum (o penúltimo do ano litúrgico), que este ano cairá a 19 de Novembro. Com a sua instituição, o Papa pretende “estimular, em primeiro lugar, os crentes, para que reajam à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro”. Mas também quer que “todos, independentemente da sua pertença religiosa”, se abram “à partilha com os pobres em todas as formas de solidariedade, como sinal concreto de fraternidade”. E acrescenta: “Deus criou o céu e a terra para todos; foram os homens que, infelizmente, ergueram fronteiras, muros e recintos, traindo o dom originário destinado à humanidade sem qualquer exclusão.”
Aos problemas colocados pela pobreza e pela existência de pobres “é preciso responder com uma nova visão da vida e da sociedade”, escreve o Papa na mensagem. “Causa escândalo a extensão da pobreza a grandes sectores da sociedade no mundo inteiro. Perante este cenário, não se pode permanecer inerte e, menos ainda, resignado”, escreve o Papa.
O fenómeno da pobreza, acrescenta, descrevendo realidades concretas, “interpela-nos todos os dias com os seus inúmeros rostos vincados pelo sofrimento, a marginalização, a opressão, a violência, as torturas e a prisão, pela guerra, a privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e o analfabetismo, pela emergência sanitária e a falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e a escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada”. A pobreza tem, ainda, “o rosto de mulheres, homens e crianças explorados para vis interesses, espezinhados pelas lógicas perversas do poder e do dinheiro. Como é impiedoso e nunca completo o elenco que se é constrangido a elaborar à vista da pobreza, fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada!”
Para dar um “contributo eficaz para a mudança da história, gerando verdadeiro desenvolvimento, é necessário escutar o grito dos pobres e comprometermo-nos a erguê-los do seu estado de marginalização”. Mas os pobres não ficam de fora dos apelos do Papa: eles não devem perder “o sentido da pobreza evangélica que trazem impresso na sua vida”.
Lembrando as primeiras comunidades cristãs e os relatos dos Actos dos Apóstolos, Francisco diz que o “serviço aos pobres” constitui “um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo”. Só possível porque os primeiros cristãos compreenderam que a sua vida, enquanto discípulos de Jesus, “se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3)”.

“Encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los”

A atenção aos pobres deve ser feita de atenção a cada pessoa concreta. “Continuam a ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: ‘Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez’”, escreve o Papa, para concluir: “somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.”

sábado, 22 de abril de 2017

Obra sobre o Papa Francisco apresentada por Marcelo Rebelo de Sousa

    "Papa Francisco - A revolução imparável" é o título do livro dos jornalistas António Marujo e Joaquim Franco, editado pela Manuscrito, que o presidente da República vai apresentar na próxima segunda-feira, em Lisboa.
    A sessão de lançamento acontecerá às 18h00, na igreja dos Dominicanos (Convento de São Domingos, Rua João de Freitas Branco, 12), junto à estação de metropolitano do Alto dos Moinhos. Está já agendada uma segunda apresentação do livro, desta vez em Braga, no dia 22 de maio.
    “Quisemos que, nas vésperas da sua vinda a Portugal, este seja um bom instrumento para quem quiser conhecer a personalidade, o pensamento e o modo de agir do Papa. Em suma, para conhecer a revolução que está a acontecer”, nas palavras de António Marujo.
    «A eleição de Jorge Mario Bergoglio como Papa correspondeu a uma espera e a uma esperança. As pessoas veem nele, no seu modo de estar e de dizer, e naquilo que propõe, a possibilidade de uma concretização. Será que a revolução do Papa Francisco é imparável?», questiona o resumo da obra.

sábado, 1 de abril de 2017

Vidas vividas

(Excertos do meu texto de introdução ao livro de fotografias Fátima – Enquanto Houver Portugueses, que será por mim apresentado este sábado, 1 de Abril, às 17h, na Cordoaria Nacional, em Lisboa, no âmbito da exposição antológica do fotógrafo que ali se pode visitar.)



Rostos, expressões, sentimentos, experiências. Vidas vividas.
Desde que comecei a tentar perscrutar o que atrai tanta gente a Fátima, as pessoas e as suas vidas são uma das razões para eu próprio me aproximar do mistério. Ainda mais porque, enquanto crente e cristão (já tentarei explicar o que pode caber nestas expressões), não acredito que a mãe de Jesus apareça fisicamente em cima de azinheiras ou em outros locais. Aceito, no entanto, que, na sua busca espiritual, haja pessoas que acreditam nessa experiência enquanto realidade e acabem por descobrir o sagrado dentro de si mesmas.
São estas pessoas, e é este sagrado, que nos falam nas fotos de Alfredo Cunha reunidas neste álbum. (...)
Adivinham-se, aliás, expressões, sentimentos, experiências e vidas muito diversas. Seja o pai que vai de joelhos levando o seu bebé ao colo, as jovens que se abraçam, as pessoas que carregam  ou mostram imagens religiosas como quem exibe uma senha de identidade, a partilha do fogo de uma vela, ou os momentos de descanso, mesmo no meio das celebrações litúrgicas. Ou, ainda, a comoção e a profundidade do olhar durante as procissões das velas e do adeus, esteticamente únicas e belíssimas (...), e que são dois momentos que redimem em absoluto o mau gosto de grande parte da iconografia que à volta do fenómeno se pode encontrar.
Ao longo de décadas, têm sido estas pessoas, milhões de rostos assim, a construir Fátima. Desde o início do fenómeno, em 1917, quando três crianças, guardadoras de rebanhos, contaram ter visto a mãe de Jesus, numa experiência espiritual que espelhava o que era vivido no tempo. A partir do que era a prática católica da época, elas construíram – sobretudo Lúcia, a mais velha – uma narrativa que remetia para a importância e a perpetuação das devoções, linguagem e espiritualidade do tempo.
Não será por acaso, por exemplo, que o texto da chamada terceira parte do “segredo” fala de espadas de fogo, perseguições ao santo padre e de um grupo de soldados que mata o Papa. Há cem anos, ainda se vivia na ideia de que este estava “prisioneiro” no Vaticano, em protesto contra o fim dos Estados pontifícios, em 1870, e a unificação italiana. No seu texto – escrito só em 1944 e “por ordem” do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva –, Lúcia acaba por assumir expressões semelhantes às que se usavam na época, e que caracterizavam Garibaldi e o rei Vittorio Emanuele como inimigos da Santa Sé e dos Estados Pontifícios.

sábado, 25 de março de 2017

Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos

Maria Madalena, apóstola dos apóstolos é o título do debate que decorre hoje à tarde, na Capela do Rato, com intervenção de Teresa Toldy e Maria Julieta Mendes Dias. A iniciativa é promovida pelo grupo português do movimento Nós Somos Igreja a partir das 15h30 e terá a introdução do padre José Tolentino Mendonça e a moderação de Alfreda Ferreira da Fonseca.
O debate insere-se nas iniciativas do Dia Mundial de Oração pela Ordenação das Mulheres, que vários grupos católicos assinalam a 25 de Março de cada ano, fazendo coincidir com a festa litúrgica da Anunciação.
Sobre Maria Madalena e outras mulheres importantes na vida de Jesus, publicou-se neste blogue um texto, em Dezembro passado, que pode ser revisitado neste endereço

domingo, 12 de março de 2017

Com Misericórdia, novos estilos de vida

Documento 

Na Sessão de Estudos promovida pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, há um ano (5 de Março de 2016), Alfredo Bruto da Costa, que morreu em Novembro últimodesenvolveu o tema “Com Misericórdia, novos estilos de vida”.
Na sua intervenção, ex-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz usa o seu estilo inconfundível, de referência permanente ao texto bíblico, à teologia dos teólogos dos primeiros séculos do cristianismo e ao pensamento  social contemporâneo para propor um caminho exigente de fidelidade ao Evangelho. Publica-se a seguir o texto que serviu de base à sua intervenção, pleno de actualidade e com referências ao tempo de Quaresma que, de novo, os cristãos estão a viver. 


Alfredo Bruto da Costa na Sessão de Estudos do Metanoia, em Março de 2016 
(foto de António José Paulino)

Agradeço o convite para falar neste encontro do Metanoia.
Devo anunciar que não tenho qualquer qualificação para falar da Misericórdia. Aceitei o convite no pressuposto de que os que me convidaram admitem que eu tenha alguma coisa de útil a dizer. É confiado neles que aqui estou.
Peço, pois, que me ouçam com redobrado espírito crítico.

***

Pareceu-me que poderia ter interesse para vós refletir no tema da Misericórdia em três pontos:
a) a importância da misericórdia na mensagem evangélica e na espiritualidade cristã;
b) como devemos entender hoje as exigências da Misericórdia, designadamente as chamadas «obras da misericórdia»;
c) o grau de transformação individual e comunitária que a Misericórdia recomenda. Designadamente, se será um problema de pequenos acertos ou, como se diz no título deste encontro, serão necessários «novos estilos de vida».

A importância da misericórdia na mensagem cristã

Creio que todos nós ouvimos falar, desde criança, da Misericórdia de Deus. «Deus é misericordioso» é uma expressão que certamente nos é familiar. A questão que se coloca é a da noção que tínhamos da Misericórdia de Deus e como a entendemos no conjunto dos atributos de Deus. Deus é justiça, é amor, é omnipotente, etc. É também misericórdia. Como conciliar todos estes atributos de Deus?
Vou socorrer-me do livro A Misericórdia [ed. Lucerna], do cardeal Walter Kasper, que é teólogo, para situar o problema. Faço-o de forma esquemática.
- a misericórdia, que é tão fundamental na Bíblia, ou caiu largamente no esquecimento na teologia sistemática, ou é tratada apenas de uma forma muito pouco cuidada. (...) [A] espiritualidade e a mística vão muito adiante da teologia académica. (p. 19-22)
- se não somos capazes de anunciar de uma forma nova a mensagem da misericórdia divina às pessoas que padecem de aflição corporal e espiritual, deveríamos calar-nos sobre Deus. (p. 15)
- Depois das terríveis experiências vividas no século XX e no ainda incipiente século XXI, a questão sobre a compaixão de Deus e sobre as pessoas compassivas é hoje mais urgente do que nunca. (p. 15)
- A misericórdia é uma dimensão importante do pontificado do Papa Francisco. Já era preocupação quando ainda era Bispo de Buenos Aires. Mas o Papa situa-se numa sucessão de papas que se ocuparam do assunto: João XXIII (nos seus escritos e no discurso de abertura do Concílio Vaticano II), João Paulo II (designadamente na encíclica Dives in Misericordia, Bento XVI também valorizou o tema, além do mais, na encíclica Caritas in Veritate. (pp. 15-19)
- É necessário repensar do princípio ao fim a doutrina sobre os atributos de Deus, concedendo à misericórdia divina o lugar que lhe pertence. (p. 21)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

“O que Trump está a fazer é iniciar uma campanha terrorista"

No DN de hoje, o meu irmão, Miguel Marujo, entrevista Faranaz Keshavjee, muçulmana e investigadora de estudos islâmicos, que diz: “Estamos todos a sofrer um abanão imenso, porque percebemos que isto está de facto a acontecer e agora é preciso pensar como é que se faz. Eu não posso impor, mas tenho de negociar. Faz-me pensar: porque é que até hoje não se negociou com ninguém. Não negociamos com terroristas, mas está aqui um terrorista. Não vamos negociar com ele?”
Faranaz  Keshavjee afirma ainda – é a frase puxada para título da entrevista – que “O que Trump está a fazer é iniciar uma campanha terrorista”, e acrescenta: “Há uma coisa grave nisto tudo e que me preocupa. Dentro da Europa e dentro da sociedade portuguesa, pessoas com alguma proeminência social, religiosa e política, estão a acompanhar muito bem a ideologia de Donald Trump. Isto é preocupante. Como seres pensantes, temos que observar, pensar, questionar e encontrar soluções. E seguramente este caminho não é o mais certo. A história já nos deu exemplos de coisas dramáticas que aconteceram, de destruição total, de desumanidade profunda e nós não podemos deixar que a história se repita. Mais a mais com o potencial que têm os EUA.”
O texto completo da entrevista pode ser lido aqui. (Foto reproduzida daqui)


Texto anterior no blogue
A Senhora de Maio - Todas as perguntas sobre Fátima - texto de apresentação do livro que hoje é apresentado em Lisboa

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

A Senhora de Maio – Todas as perguntas sobre Fátima


No último fim-de-semana foi posto à venda o livro A Senhora de Maio – Todas as perguntas sobre Fátima (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores), que tive o gosto de fazer com o meu camarada de profissão Rui Paulo da Cruz.
O livro será objecto de uma apresentação pública esta quarta-feira, dia 8, às 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luís, em Lisboa. A sessão conta com a participação, em forma de debate, da escritora Lídia Jorge (que assina o prefácio), do historiador Fernando Rosas e do antropólogo e professor da Universidade Católica, Alfredo Teixeira.

Idêntica sessão decorrerá no próximo dia 16, às 21h, no Auditório do Centro Missionário Allamano (Rua Francisco Marto 52), em Fátima, com Graça Poças Santos ​(​professora do Instituto Politécnico de Leiria e autora do livro Espiritualidade, Turismo e Território: estudo geográfico de Fátima​)​  e Maria Inácia Rezola ​(​historiadora, integrou a equipa da Documentação Crítica de Fátima e é autora do estudo Sindicalismo Católico no Estado Novo​)​.

O livro recolhe um conjunto de mais de vinte entrevistas e depoimentos com perspectivas muito diversas sobre o fenómeno de Fátima, a partir da teologia, espiritualidade, religiosidade popular, antropologia e sociologia. Testemunhos de contemporâneos dos acontecimentos de há 100 anos e alguns dos documentos fundamentais sobre os acontecimentos – incluindo uma carta de Lúcia ao cardeal cerejeira a falar sobre Salazar – são também publicados.
Entre os entrevistados, contam-se os bispos Januário Torgal Ferreira e Carlos Azevedo, o historiador António Matos Ferreira, frei Bento Domingues, os padres Mário de Oliveira e Luciano Cristino, o antigo e o actual reitor do santuário, padres Luciano Guerra e Carlos Cabecinhas, o cardeal Saraiva Martins, a psicanalista Maria Belo, o sociólogo Moisés Espírito Santo e o antropólogo Alfredo Teixeira.
No prefácio, escreve Lídia Jorge: “António Marujo e Rui Paulo da Cruz rodam a chave no sentido certo. Oxalá este livro (...) possa abrir o capítulo de uma discussão que convém ser serena na forma, mas por certo não poderá evitar a contradição, o debate e o confronto aberto das ideias em face da crença. Debate que sempre ultrapassa os níveis da razão e da ciência – mas não as ignora –, esse patamar de confronto tão difícil de alcançar em Portugal.”
Reproduzo a seguir a nota inicial dos dois autores (que fica completa com uma nota final, que se encontra no livro).

Para o leitor acrescentar novas perguntas e propor as suas próprias respostas

Texto de António Marujo e Rui Paulo da Cruz

Os fenómenos ocorridos na Cova da Iria em 1917 adquiriram grande relevância política e religiosa, não só naquela época. Mas, ao mesmo tempo, dividiram e dividem opiniões e emoções em Portugal e no mundo, mesmo entre os católicos. Fátima é fruto da imaginação de três crianças e da imposição do clero ou revela uma forte experiência espiritual? Ela reflecte o catolicismo popular daquele tempo ou apresenta o essencial do cristianismo? O fenómeno subsistiu por causa da oposição da República e do apoio do Estado Novo ou mantém-se pela sua grande modernidade religiosa?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Timothy Radcliffe em Lisboa: escutar a consciência dos leigos e a santidade do corpo

O antigo mestre geral da Ordem dos Pregadores (Dominicanos), Timothy Radcliffe, estará no próximo fim-de-semana em Lisboa, onde fará duas conferências, sobre temas que lhe são caros e sobre os quais tem desenvolvido muita reflexão. A primeira é no sábado, 28, com o título How can the conscience of the Laity be heard? (Como pode a consciência dos leigos ser escutada?). Iniciativa conjunta do Instituto São Tomás de Aquino (ISTA) e do movimento Nós Somos Igreja, a conferência será proferida em inglês mas estará disponível um texto com a tradução em português.



Timothy Radcliffe (foto reproduzida daqui)

No domingo, 29, o tema será The holiness of the body (A santidade do corpo), numa iniciativa do ISTA. Proferida em espanhol, a conferência também terá disponível uma tradução em português. Decorrem ambas a partir das 15h30 no Convento de São Domingos de Lisboa (R. João Freitas Branco, 12; metro: Alto dos Moinhos).
Biblista e teólogo, Radcliffe é considerado um dos mais originais autores católicos contemporâneos, tendo sido o único dominicano da província inglesa a exercer o cargo de mestre-geral da Ordem (entre 1992 e 2001), desde a sua fundação, em 1216. Nas Paulinas estão publicados vários livros seus: As Sete Últimas Palavras, Ir à Igreja, Porquê?, Ser cristão para quê?, e Imersos na vida de Deus. No sábado, 28, após a conferência, serão apresentados dois novos títulos de fr. Timothy: Na Margem do Mistério, e Via-Sacra – Carregou as nossas dores.

Em 1999, numa visita enquanto mestre-geral da Ordem à província portuguesa, fiz uma entrevista a Timothy Radcliffe, entretanto publicada na íntegra no livro Deus Vem a Público – Entrevistas Sobre a Transcendência (ed. Pedra Angular/Sistema Solar).
Reproduzo a seguir o texto.

Timothy Radcliffe: Temos de estar nos lugares onde as pessoas sofrem

Os dominicanos e os cristãos têm que estar onde as pessoas sofrem. Deus está para lá das concepções pessoais. E o desafio da Igreja na Europa é a construção de comunidades numa sociedade fragmentada. Ideias e Timothy Radcliffe, que foi mestre geral dos dominicanos entre 1992 e 2001. Naquele cargo, o padre Radcliffe dizia que gastava muito tempo a viajar – oito meses no ano – para “estar em contacto com os irmãos: a unidade da ordem depende da escuta dos irmãos”.
Nascido em Londres (Inglaterra), a 22 de Agosto de 1945, Timothy Peter Joseph Radcliffe tomou o hábito dominicano aos 20 anos e foi ordenado padre em Oxford, em 1971. No capítulo geral da ordem, realizado no México em 1992, foi eleito mestre geral da ordem fundada por S. Domingos em 1216. Autor de várias obras sobre espiritualidade, vida religiosa e sexualidade, colaborador regular de várias publicações (entre as quais The Tablet e National Catholic Reporter), continua a ser solicitado em todo o mundo.
Na visita canónica que fez à província portuguesa dos dominicanos, em 1999, queria perguntar aos seus confrades: “Onde estão as pessoas a fazer perguntas? Quais são as perguntas” que se fazem à Igreja? “E como respondemos nós a essas perguntas?”
Vários textos da sua autoria estão publicados em edição policopiada pelas Monjas Dominicanas do Mosteiro de Santa Maria, no Lumiar (Lisboa).

Costuma visitar lugares onde os dominicanos enfrentam situações sociais graves de guerra ou injustiça. Qual é a relação desse trabalho com a missão original da ordem?
TIMOTHY RADCLIFFE – Fomos fundados para ser pregadores. Para isso, não se pode falar às pessoas sem as ouvir primeiro. Para nós, é um grande desafio: como estamos presentes nos lugares onde as pessoas pensam? Como estamos nos lugares onde as pessoas fazem perguntas? Tem que se estar nos lugares onde as pessoas sofrem, onde as pessoas são pobres. E isto é um desafio para um mundo onde a pobreza se torna cada vez mais dolorosa.