domingo, 25 de setembro de 2011

Pastoral Operária: Não basta a contenção; urge o desenvolvimento, a justiça e a coesão social

"A par de medidas de contenção, têm de ser pensadas e reforçadas medidas de apoio a projectos de investimento criadores de novos empregos e a uma efectiva justiça e coesão social, para que haja um verdadeiro desenvolvimento do país", afirma, em comunicado, o Conselho Nacional de Pastoral Operária que realizou o seu encontro anual neste sábado, 24, em Coimbra.
A Pastoral Operária congrega os organismos cuja missão evangelizadora tem como campo principal o Mundo Operário: JOC (Juventude Operária Católica), LOC/MTC (Liga Operária Católica/Movimento de trabalhadores Cristãos), MAAC (Movimento de Apostolado de Adolescentes e Crianças), PEMO (Padres em Mundo Operário) e REMO (Religiosas em Mundo Operário). É o seguinte o teor do texto saído do encontro:
"No âmbito da preparação para este Conselho Nacional, os colectivos membros reflectiram a realidade do mundo do trabalho e apontaram algumas das preocupações mais sentidas pelos trabalhadores e suas famílias, realçando alguns caminhos, sustentados pela esperança que nos é comunicada pela força do Ressuscitado e pelo ensino social da Igreja. O desemprego, a insegurança dos que têm trabalho e a precariedade laboral no Meio Operário, são apontados como os principais.
Estas realidades colocam em causa uma vida familiar equilibrada; criam receio quanto ao futuro e à formação dos filhos (crianças e jovens); impedem os jovens de concretizarem sonhos, de terem perspectivas de futuro; motivam a emigração de jovens licenciados, de trabalhadores da construção civil, da restauração, hotelaria e serviços domésticos; agravam a situação de fragilidade (laboral e social) de muitos imigrantes; geram cortes em necessidades essenciais como a saúde (medicamentos e tratamentos), a educação dos filhos, a própria alimentação; agravam as situações de pobreza, nas quais as crianças, jovens e idosos são os mais vulneráveis e fragilizados.
Como resposta para resolver muitas destas novas situações de pobreza sobressai apenas uma vertente mais assistencialista, que não é promotora da justiça e coesão social. A sustentabilidade da Segurança Social é ameaçada, não só pelas diminuições dos descontos provocados pelo decréscimo demográfico ou aumento do desemprego, mas também pela imposição do memorando da Troika de baixar largamente a comparticipação das empresas.
Insiste-se em legalizar a precariedade argumentando a sua inevitabilidade, quando já percebemos que o seu único fruto é aumento da própria precariedade. Temos uma comunicação social que, em muitos casos, tem formatado as pessoas em vez de as ajudar a ter uma consciência crítica sobre os acontecimentos.
Assistimos, diariamente, a notícias de cortes em áreas sociais essenciais e o aparecimento de mais impostos que geram mais desemprego, pobreza, desestruturação familiar, condições de vida miseráveis, violência, aumento de sentimentos de xenofobia e outros problemas sociais de extrema gravidade.
Durante anos sonhamos e defendemos uma Europa social e solidária, exigente no controle dos apoios e atenta às necessidades de cada povo na sua autonomia e cultura. Hoje, deparamo-nos com lideranças egoístas e economicistas. Não aceitamos a ideia que querem difundir de que foi pelo facto dos povos terem mais apoios e segurança, que chegámos à situação presente. Se há quem não tem culpa nesta crise é o povo trabalhador, são as famílias que se esforçaram por crescer em conhecimentos e em abertura ao outro.
Reconhecemos a necessidade de redução das despesas, de hábitos de poupança e de uma re-educação financeira das famílias, mas também, de se valorizar a solidariedade e o que é realmente importante para a dignidade e a realização da pessoa humana. Começam a surgir movimentos de resistência e as pessoas aprendem a viver sem consumirem exageradamente e a descobrir que podem viver com menos sem perder a sua dignidade.
A par de medidas de contenção, têm de ser pensadas e reforçadas medidas de apoio a projectos de investimento criadores de novos empregos e a uma efectiva justiça e coesão social, para que haja um verdadeiro desenvolvimento do país.
Perante a realidade muito marcante de desemprego, de salários baixos e em atraso, desregulação do trabalho e dificuldades graves de muitas famílias do meio operário de todo o país, sublinhamos o que diz a Encíclica de João Paulo II Laborem Exercens, no seu 30º aniversário: ”o trabalho é a chave, provavelmente a chave essencial, de toda a questão social se procuramos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem da pessoa” (nº3). Torna-se, pois, necessário assumir o nosso papel de profetas que normalmente se desenvolve e está no meio do sofrimento, de aceitar a proposta de Jesus Cristo “Faz-te ao largo”. É grande o desafio ao discernimento para, como cristãos, nos empenharmos generosa e gratuitamente no meio operário e continuarmos a ser fonte de esperança.
No meio da fragilidade social que vivemos, acreditamos que Deus se torna evidente em todos aqueles e aquelas que gritam por uma vida digna e estão a ser empurrados para fora da mesa do Bem Comum. Neste sentido queremos dar voz à nossa indignação perante todas as formas de exclusão, provocadas pelo desemprego ou exploração no trabalho e reafirmar a nossa confiança na conjugação de esforços de forma a construir uma sociedade mais justa e fraterna."

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

À procura da Palavra - O "SIM" VÊ-SE NA VIDA

“Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino de Deus.”

(Evangelho de S. Mateus 21, 31 - Domingo XXVI do Tempo Comum)

Quando se vive imerso numa cultura do “nim” só provocações como a de Jesus no evangelho de hoje nos podem fazer acordar. Não propagamos, algumas vezes, uma imagem de Jesus adocicada ou insonsa, que “fica bem” mas é vazia, e sanciona um comportamento de quem parece que “meteu Deus no bolso”? Levar a sério a pequena parábola dos irmãos que o pai pede para irem trabalhar na vinha a vinha, e onde acaba por ir aquele que disse “não”, implica partir o verniz da aparência, denunciar falsas superioridades morais, reconhecer hipocrisias que se apresentam como modelos de virtudes. A proposta de viver na verdade, que Jesus faz, é natural que encontre obstáculos no reino das aparências e dos julgamentos. Porque interroga e aponta mudanças. Convida a ver por dentro. E a viver no presente.

Gosto muito das letras e das canções de Sérgio Godinho. Há muitos anos. Pela força dos seus poemas. Pelo cantar impregnado de vida e pelas interrogações. Como diz numa recente entrevista: “As interrogações que há nas minhas canções são dúvidas. Dúvidas para serem respondidas pelos outros. São interpelações”. É preciso tanta coragem para interpelar como para deixar-se interpelar. O hábito, o preconceito, a soberba, o ar e a prática da superioridade, a rotina da mentira e o culto da aparência impedem o crescimento e o amor. Tudo fica relativo. Canta o Sérgio no último disco: “Não vás dizer que o amor é relativo, se o relativo fosse coisa que se visse não era amor o porque morro e o porque vivo”.

Estaria cheio de boas intenções o filho que disse logo “sim” ao pai. Ou então respondeu por rotina, para “ficar bem na fotografia”, talvez porque havia plateia que interessava impressionar! Talvez até pensasse em ir... lá por alturas do Natal! Quando se é falso vive-se noutra dimensão ou noutro tempo. E acaba por ser fácil imaginar uma “idade de ouro” ou uma vida outra com pessoas ilustres e perfeitas, quem sabe até sendo nós uma delas! Esta é a temática do último filme de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”, uma deliciosa parábola sobre a coragem de viver no presente. Em que o gosto das coisas belas do passado pode ser vivido nesta construção, às vezes dolorosa (serão as dores do parto?), do presente.

Viver na aparência é estacionar na vida. É pôr-se numa redoma, sem pecado, nem necessitado de salvação. Bastando-se a si mesmo. Como Jesus gostava dos que traziam o coração nas mãos. Dizendo não com a boca, e sim com a alma e a vida. Alegrando-se com o encontro com Ele, que é especialista em semear futuros. Revestidos da verdade, ainda que isso não ganhasse audiências, nem boa fama junto dos “muito bem” mas que faz sorrir o bom Deus!

(Comentário aos textos da liturgia católica, publicado na edição da Voz da Verdade de 25.09.2011; imagem copiada daqui.)

"Podemos chegar até Ele?"

"Perguntar-me-ão, talvez: 'Mas Deus existe? E se existe, ocupa-se verdadeiramente de nós? Podemos chegar até Ele?'. Sim, é verdade: não podemos pôr Deus sobre a mesa, não podemos tocar-lhe como um utensílio ou pegar-lhe como um objecto qualquer. Devemos desenvolver de novo a capacidade de percepção de Deus, capacidade que existe em nós. Podemos intuir algo da grandeza de Deus na grandeza do cosmos. Podemos utilizar o mundo através da técnica porque ele foi construído de maneira racional. Na grande racionalidade do mundo podemos intuir o espírito do criador do qual provém, e na beleza da criação podemos intuir algo da beleza, da grandeza e também da bondade de Deus. Na Palavra da Sagrada Escritura podemos escutar palavras de vida eterna que não vêm simplesmente dos homens, mas d'Ele, e nelas escutamos a sua voz. E finalmente, quase vemos Deus também no encontro com as pessoas que foram tocadas por Ele. Não penso só nos grandes: de Paulo a Madre Teresa passando por Francisco de Assís; penso igualmente em tantas pessoas simples em que ninguém fala. Contudo, quando nos encontramos com elas, emana delas algo de bondade, sinceridade, alegria e sabemos que Deus está aí e que Ele nos toca também a nós. Por isso, nestes dias, queremos empenhar-nos em voltar a ver Deus, voltarmos nós próprios a ser pessoas através das quais entre no mundo a luz da esperança, que é luz que vem de Deus e que nos ajuda a viver". Excerto da mensagem de Bento XVI difundida no passado dia 17, sábado, pela TV pública ARD, a propósito da visita pastoral que amanhã inicia na Alemanha.

domingo, 18 de setembro de 2011

À procura da Palavra - TRABALHAR NA VINHA

(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?”

(Evangelho de S. Mateus 20, 15 - Domingo XXV do Tempo Comum)

Estes dias de Setembro parecem trautear aquela canção de Ivan Lins que começa assim: “Começar de novo e contar comigo /Vai valer a pena ter amanhecido.” São os recomeços após algum tempo de férias (para os que as puderam saborear), a azáfama à volta do ensinar e do aprender, o reacender de ideias e projectos como se um novo ano começasse agora. Por entre as nuvens carregadas do pessimismo económico não haverá pequenos raios de sol que estimulam a criatividade, a simplicidade, a ultrapassagem da rotina e do acomodamento? Uma solidariedade a promover é também a de propor a aventura de “começar de novo”, em qualquer tempo e lugar.

Não pretende Jesus fazer um tratado sobre o trabalho humano com a parábola dos contratados para a vinha. Muito menos sobre a justa retribuição do trabalho realizado. A não ser na afirmação incondicional de que ninguém deve ficar sem trabalhar. É admirável o constante movimento do dono da vinha que sai, por cinco vezes, a contratar trabalhadores. Pois do empenho de todos depende o sucesso da vindima. E se assim é o “Reino dos Céus” também é a vida do mundo. A grandeza de uma sociedade mede-se mais pelo valor reconhecido ao trabalho de todos do que pela riqueza produzida. No trabalho de cada um há uma participação no próprio trabalho de Deus, um prolongamento da criação nasce do meu saber e das minhas mãos. A própria caridade não pode deixar de estimular a doação que quem recebe é capaz de fazer.

É na hora do pagamento que se revela a generosidade deste dono da vinha. A sua justiça ultrapassa as nossas contabilidades quando o denário do salário se troca por salvação, vida plena e abundante. O importante não é a competição, o julgar que “somos os melhores”, ou temos mais “direitos”, mas viver a generosidade que transborda de Deus. Se este denário é o bem total, que precisamos mais? A lógica do acumular, de ter mais para se julgar superior, de mostrar ao mundo em casas sumptuosas e em riqueza esbanjada que se está acima dos mortais, não cabe aqui. E é um grave atentado à dignidade dos mais pobres e explorados!

Mas por agora tratemos mais de trabalho do que de pagamento. E quanto a trabalho eclesial, a síntese de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, na Semana Bíblica em finais de Agosto, sobre a Igreja em Portugal, é um óptimo contrato a reflectir. As “sombras” e “luzes de esperança” que aponta não nos podem deixar indiferentes, a repetir “mais do mesmo”, naquele ciclo de religiosidade que refere “da terra, do sangue e dos mortos”. É possível rever os contratos de trabalho, mais cheios de direitos que de deveres, e estes, talvez vazios, que também fazemos em Igreja? Da primeira à última hora queremos mesmo acolher quem deseja trabalhar? Se não, como poderemos dizer: “vai valer a pena ter amanhecido”!

Bento Domingues: Preparar o Vaticano III

Frei Bento Domingues, na sua coluna dominical, no Público (18.09.2011):

1. 

A proposta que hoje principiarei a esboçar pouco tem a ver com outras que foram surgindo ao longo dos últimos 30 anos, mesmo com as sugestões que eu próprio já fi z nestas crónicas acerca da interpretação, das formas de acolhimento prático (recepção) e do futuro do acontecimento mais marcante da Igreja Católica no séc. XX, o Concílio Vaticano II (1962-1965). Dada a velocidade com que agora tudo sucede, esse acontecimento talvez já pouco ou nada signifi que para os próprios católicos com menos
de 40 anos. É, no entanto, por causa das novas gerações, católicas ou não, que é importante não nos deixarmos atolar nas difi culdades presentes.
É normal que, no contexto das próximas evocações, estudos, balanços e desenhos de perspectivas futuras em torno dos 50 anos da convocatória dessa assembleia geral, feita pelo Papa João XXIII, a 25 de Dezembro de 1961, reapareça o confronto entre as tendências que desejam e aquelas que recusam um novo concílio. Na situação actual, basta que o Papa se pronuncie num ou noutro sentido, para saber a escolha que prevalecerá. A democracia na Igreja — a convicção de “aquilo que diz respeito a todos deve ser tratado por todos” — encontra quase sempre sofi smas e preguiça para ser desencorajada. Por outro lado, os regimes democráticos andam tão cansados que até invejam os resultados económicos da China totalitária. Mas valerá a pena preparar um novo concílio ecuménico, quando ainda estamos tão longe de ter assimilado o que há de melhor no Vaticano II?
Não são objectivos incompatíveis, antes pelo contrário. Terá de ser, porém, verdadeiramente novo e com características de universalidade que exceda tudo o que aconteceu no passado. Cinquenta anos de experiências e conquistas, com luzes, sombras e pesadas derrotas, podem ser inspiradores para entrar num processo de descoberta e reconfi guração de uma estrada larga por onde todos os seres humanos do nosso tempo, de todas as culturas, possam caminhar sem se atropelarem uns aos outros.

2. 

É urgente começar. Gordon Brown, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, num artigo recente (DN, 09/09), tem a convicção de que poucas pessoas duvidam do seguinte: hoje o mundo está à deriva, sem rumo e sem liderança, na direcção de uma segunda recessão. A política do desenrasque falhou. Com a incapacidade de concluir um acordo global, um acordo sobre políticas climáticas, um pacto de crescimento ou alteração no regime financeiro, o mundo tende a descer para um novo proteccionismo de desvalorização competitiva, guerras de moeda, restrições ao comércio e controlo de capitais.
Segundo G. Brown, feitas as contas, verifi ca-se que, por agora, a América e a Europa não podem expandir os seus gastos de consumo sem aumento de exportações e a China e os mercados emergentes não podem facilmente expandir a sua produção ou consumo sem a garantia de mercados ocidentais fortes. Torna-se indispensável restaurar uma visão ampla de cooperação global contida no pacto de crescimento do G20 que representa 80% da produção mundial. Sendo o único organismo multilateral capaz de coordenar a política económica global, tornou-se extremamente útil em 2009. Infelizmente, os Estados-membros abandonaram rapidamente esse objectivo e passaram para soluções nacionais. Como era previsível, avançar sozinho provou ser inútil para garantir a recuperação económica. Chegou novamente a vez da urgente intervenção do G20.
Em relação a Portugal, o economista José Castro Caldas é de opinião que, sem um portentoso milagre, o roteiro traçado pelo Governo português para nos salvar é o caminho mais directo para nos perder (PÚBLICO, 13/09). Sem uma mudança urgente na orientação da Europa, são previsíveis grandes turbulências e até o fi m da própria União Europeia. O Governo português, para além das medidas que terá de assumir — os países não podem fechar as portas para obras —, deveria empenhar-se com ardor nessa viragem e com mais cautelas na perigosa façanha de ultrapassar as exigências da troika para conseguir os empréstimos do “vil e mentiroso dinheiro”.
Poderia, sem dúvida, ter escolhido outras referências, para chamar a atenção para esta banalidade: o mundo
anda sem rumo, sem liderança, à deriva. Não só no plano da economia dominado pelos jogos da fi nança, em mercados sem regras e exigências éticas, sem preocupações humanas. Sem lideranças que procurem o “bem comum de toda a humanidade”, andaremos como ovelhas sem pastor, na linguagem bíblica da pastorícia, devorados pela insaciável “era da ganância”.

3. 
A questão de fundo é, todavia, outra: não é possível encontrar caminhos de convergência universal sem “mudar de paradigma”, sem procurar integrar antigas e novas sabedorias nas famílias, nas escolas, na sociedade, nas políticas, uma sabedoria holística. Não para desvalorizar os caminhos das ciências e os serviços das novas tecnologias, mas para resistir às suas tentações reducionistas. O ser humano é multidimensional. Não pode ser amputado das suas raízes nem dos sonhos.
Como poderá um novo concílio convocar os seres humanos para a redescoberta do simbólico, do universo  dos laços com tudo e com todos? Veremos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Vaticano II - O Pós-Concílio"

Divorciados que se voltaram a casar: um debate necessário

O arcebispo de Friburgo e presidente da Conferência Episcopal Alemã, Robert Zollitsch, defendeu numa entrevista dada há dias, que espera que a Igreja mude a sua atitude para com os fieis divorciados que se voltaram a casar. A posição, também defendida noutros sectores eclesiásticos, suscitou reacções em cadeia, especialmente motivadas pela perturbação que lança no clima de expectativa face à visita do Papa à Alemanha, que ocorrerá dentro de dias. Com base num trabalho publicado na versão em espanhol do site Vatican Insider, damos aqui eco a algumas das posições que se manifestaram a este propósito:

Cardeal de Colónia, Joachim Meisner: 
«la indisolubilidad del matrimonio vale para todos los niveles y exponentes de la sociedad. Usted sabe bien que la Iglesia perdió completamente Inglaterra por haberle tenido fe al principio de la indisolubilidad del matrimonio contra Enrique VIII».

Núncio apostólico em Berlín, Jean-Claude Périsset: 
Dirigiéndose a la agencia de prensa católica sobre el debate que abrió Zollitsch, advirtió sobre «algunas expectativas desproporcionadas». Con respecto a la cuestión de los fieles divorciados y que se han casado de nuevo, «la doctrina de la Iglesia es clara [...] y no es posible esperar cambios de rumbo al respecto». 

Resposta do arcebispo Zollitsch, sobre as declarações do Núncio:
«Lo que quiero es muy sencillo: estoy convencido de la indisolubilidad del matrimonio y de su carácter de Sacramento. Pero tenemos que reconocer que muchos matrimonios fracasan y que a muchas personas las dejan sus cónyuges. Por lo tanto, hay que considerar la situación de estas persona seriamente. De hecho, los fieles que se casaron por la iglesia y por lo civil se separan civilmente y se vuelven a casar civilmente; para la Iglesia, estas personas viven en una condición promiscua. Es aquí que se propone la cuestión: en cuáles circunstancias se puede considerar que ya no viven en el pecado y que pueden de nuevo ser aceptados en la comunión. Se trata de volver a examinar esta situación a nivel teológico y de considerar en el nivel pastoral».

Arcebispo de Berlín, Rainer Maria Woekli, que apoiou Zollitsch no diário “Schwäbische Zeitung”.
Hay que reconocer la situación de estas personas y hay que acogerlas con comprensión y misericordia. «Nosostros mismos seguimos el precepto de Jesús sobre la indisolubilidad del matrimonio», observó el arzobispo, y añadió que «afrontaremos el argumento con la Conferencia episcopal y con el Santo Padre».

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O bispo

Caríssimo: É digna de fé esta palavra: se alguém aspira ao episcopado, deseja um excelente ofício. Mas é necessário que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, ponderado, de bons costumes, hospitaleiro, capaz de ensinar; que não seja dado ao vinho, nem violento, mas condescendente, pacífico, desinteressado; que governe bem a própria casa, mantendo os filhos submissos, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará ele da igreja de Deus? Que não seja neófito, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação do diabo. Mas é necessário também que ele goze de boa reputação entre os de fora, para não cair no descrédito e nas ciladas do diabo. 1ª Carta a Timóteo 3,1-7.

domingo, 11 de setembro de 2011

À procura da Palavra - FORTE É QUEM PERDOA

(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)


“Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.”

(Evangelho de S. Mateus, 18, 27 - DOMINGO XXIV do Tempo Comum) 

É de Mohandas Gandhi esta frase: “O fraco nunca perdoa. O perdão é a característica do forte”. E ainda que a mentalidade reinante, talvez não em teoria mas na prática, pareça contradizê-la constantemente, ela mantém a sua força interpeladora. Só o perdão possibilita futuro; enquanto ele não acontece há uma ilusão de progresso mas está-se simplesmente a “patinar”, a construir castelos na areia, a alimentar um monstro dentro de si ou até da sociedade, que mais dia, menos dia, volta a fazer das suas. Vemo-lo na maioria das revoluções políticas: os oprimidos que se revoltam depressa se tornam em novos opressores. E criam a sua corte de “pequenos ditadores” implacáveis e justiceiros, piores até que o senhor a quem dizem servir!


Jesus colocou o perdão na única oração que nos ensinou: “perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. É curiosa a imagem de continuidade da ofensa (“nos tem ofendido”), merecendo sempre o perdão. E bem sabemos que é das frases mais difíceis de dizer porque o perdão dá muito trabalho. Na parábola de hoje é quase inimaginável a distância entre a dívida do primeiro homem e a do segundo. Segundo o câmbio da época, dez mil talentos equivalia ao sustento de uma família durante mais de...oitenta e dois mil anos! E, sem pestanejar, o rei, que tinha mandado vender o servo, a família e tudo o que tinha, compadecido pelo seu pedido de um prazo, liberta-o e perdoa-lhe a dívida. Não confundamos com as “fraudes e desvios instituídos” de quem delapida bens públicos sem nunca vir a ser responsabilizado! Aqui trata-se de um amor gratuito e inconcebível para a estreiteza dos nossos corações. Por isso é chocante a falta de compaixão deste servo perdoado para com o seu companheiro que lhe devia cem denários, o equivalente ao sustento de... cinquenta dias! Perdoado em 29930000 dias, incapaz de perdoar 50!


Pois é, o perdão não se entende muito bem com contas. Nasce de uma generosidade que desencadeia gratidão. Que não se “paga para trás” mas para a frente, como exemplificava o belíssimo filme com Kevin Spacey, Helen Hunt e Haley Joel Osmet , “Favores em cadeia”. A única medida do perdão é a confiança absoluta do perdão de Deus. O egoísmo pode fechar esta comunicação de amor que Deus quer fazer passar por nós. E então tornamo-nos estéreis, azedos, fechados num legalismo gelado, justificando as nossas razões ou endeusando as opiniões que temos dos outros. Há uma corrente de vida e de amor vinda de Deus, que passa pela nossa aprendizagem em perdoar. Mas será que entramos nessa corrente? Sentimos a alegria de ser perdoados? Ou nem sequer nos julgamos necessitados de perdão? Não será mesmo verdade que, forte, e feliz, é quem perdoa? (Imagem copiada daqui

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Luís Miguel Cintra: "Sou actor do mistério do mundo"

O actor Luís Miguel Cintra lançou hoje, em Lisboa, três discos onde lê textos de padre António Vieira, do apóstolo São João e de Luís de Camões. A este propósito, o jornalista Tiago Bartolomeu Costa publica hoje no caderno P2, do Público, um trabalho de três páginas que, a partir de uma conversa com o encenador, conta "A viagem que o trouxe até à fé" e que "demorou o tempo de uma vida". Num texto bem urdido, acompanhamos esse percurso inquieto e inquietante, entremeado de episódios e de falas. É destas que ficam aqui alguns registos, que não dispensam a leitura do trabalho publicado.
  •  “Desde sempre precisei de exemplos. De santos. Do exemplo de vidas políticas. Voltadas para os outros e voltadas para Deus. A nós, menos grandes, e sobretudo já passada a idade de crescer, são quem nos defende do Mal, do cinismo. E nos deixam o desejo. Ainda vontade de conhecer.” 
  • “Não fui formado para aderir a determinada ideologia e dizer que sou marxista ou ateu. Sempre vivi numa grande dúvida e incertezas. Agi sempre com aquilo que me parecia correcto e grande sentido de responsabilidade” (...) “Com a idade percebi a intimidade e a lealdade para comigo, e a resolução das questões no interior de mim mesmo. Isto tem a ver com ser actor, não apenas espectador dos outros, dos espectáculos ou dos actores, nem do mistério do mundo.” “Sou actor do mistério do mundo”
  •  “Há um desejo de pensar a vida de forma mais vasta que não a materialista, que se exalta na construção de metáforas ou de espectáculos e também no que se pode chamar fé, crença ou um espanto [em uma] transcendência da vida que a torna num mistério inexplicável.” 
  • “Custa-me a ideia de missão universal, a de tornar todo o mundo cristão. Não me passaria pela cabeça que um árabe passasse a ser cristão, mas comove-me tanto um árabe virado para Meca como um cristão de joelhos num altar.” A questão é mais profunda: “Como é que é possível não se ter fé? Como se pode viver sem necessidade de acreditar em nada a não ser o que é comprovado cientifi camente? É deixar escapar uma parte principal da vida”. E resume: “É por isso que me comovo.” 
  • “Os textos são metáforas que exigem uma interpretação individual. Quando uma pessoa está a meu lado na missa e diz ‘Creio em Deus Pai’, respeito que a essa imagem corresponda uma pintura que tenha visto num museu ou uma ideia de superpai que ela tenha na cabeça. A Igreja não devia impor às pessoas uma unidade tal que despersonalize o envolvimento das pessoas naquilo e que torne as pessoas burras. A Igreja devia produzir a apropriação individual de toda a mitologia cristã, mesmo que isso levasse ao fim do poder da Igreja.” 
  • “Acreditar em Deus é acreditar também numa parte misteriosa da condição humana. Não consigo dissociar as duas coisas. Deus existirá ou não na capacidade de os homens o pensarem e de lhe darem um verdadeiro sentido. O que me agrada no cristianismo é a ideia de que Deus se torna homem. Não tem forma, ao contrário dos deuses gregos, e toma a forma humana. A forma humana pôde, um dia, conter divindade. Isso para mim é fundamental porque diz que é do ser humano que parte a sua transcendência. E é a isso que se chama alma, porque o anima.” 
  • “Gosto imenso da vida, mas tenho que me conciliar com a ideia de que ela vai acabar. Só o consigo fazer se pensar que a vida não é só a minha, mas a das outras pessoas todas.” (...) “Tenho que pensar que sou pó. Eu e toda a gente. Quanto mais me habituo à ideia de que vou morrer, mais necessidade tenho de pensar que existem outras vidas que vão continuar. E fi co a gostar mais da vida, porque gosto do que as outras pessoas vivem e fazem. Há uma espécie de corrente que transcende o destino individual e que se vai prolongando entre gerações. O que vivi provoca mais vida.”
(Crédito da foto: Público)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

11 de Setembro e Assis no encontro inter-religioso de Munique

A Comunidade de Santo Egídio promove deste domingo até terça-feira um encontro religioso ao mais alto nível para evocar o décimo aniversário do 11 de Setembro e os 25 anos da Jornada de Oração pela Paz de Assis. A iniciativa tem lugar em Munique, na Alemanha.
Líderes políticos e religiosos e personalidades do mundo dos media e da academia de mais de 60 países participarão em momentos de oração e num programa intenso de debates que se estendem, por vezes em sessões paralelas, até ao fim do dia 13.
Delegações católicas, das confissões protestantes, das igrejas ortodoxa e orientais, do judaísmo e do islão, do budismo japonês, cingalês e cambojano; das antigas religiões índias, como o jainismo e o parsismo; das religiões tradicionaiss, como o xintoísmo.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vinho novo em odres novos

«Ninguém recorta um bocado de roupa nova para o deitar em roupa velha; aliás, irá estragar-se a roupa nova, e também à roupa velha não se ajustará bem o remendo que vem da nova.
E ninguém deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho novo rompe os odres e derrama-se, e os odres ficarão perdidos.
Mas deve deitar-se vinho novo em odres novos». 


Lucas, 5

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Serviços de saúde: "O papel insubstituível do Estado"

O Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz acaba de divulgar(*) um extenso documento de grande actualidade e de enorme significado político, para a vida da colectividade. Intitula-se "Serviço Nacional de Saúde [SNS]- Um Modelo a Preservar" e surge apoiado na consulta numa grande diversidade de fontes autorzadas, nacionais e estrangeiras.
Recomendando a leitura integral do texto, deixamos aqui algumas das suas ideias:
  • "Um princípio que defendemos na reforma no S.N.S. é o papel insubstituível do Estado: os cuidados de saúde não podem, por várias razões, ser objecto de comércio, como se de um qualquer bem se tratasse"
  • " (...)as despesas sociais, agora olhadas quase exclusivamente como um custo, são fundamentais na promoção da estabilidade politica e social, ao mesmo tempo que são também factor de crescimento da economia e como tal hão de continuar a ser consideradas como um investimento".
  • "A experiência tem mostrado que o recurso aos mecanismos de mercado tem sido feito sem a necessária ponderação, e sem ter na devida conta que a concorrência na prestação dos cuidados de saúde é, muitas vezes, fonte de despesas excessivas por parte dos particulares e do próprio Estado com consequente agravamento de desigualdades, em prejuízo do direito universal à saúde" .
  • "O S.N.S., que é uma rede de serviços de saúde articulados e complementares, apoiados solidariamente pelos contribuintes através do Orçamento de Estado, terá que fazer face a um duplo desafio: por um lado, será obrigado a adoptar medidas de contenção de custos; por outro, terá que preparar-se para uma procura crescente, visto que, para muitas pessoas, a possibilidade de pagar cuidados privados de saúde deixará de existir. Acresce que tudo se conjuga – maior desemprego, pobreza e insegurança quanto ao futuro – para que a própria saúde individual acabe por ser afectada, induzindo, também, maior procura de cuidados".
  • "Estima a O.M.S. que entre 20% e 40% de todos os gastos em saúde são desperdiçados por ineficiência. Em Portugal, o Tribunal de Contas estimou o desperdício resultante da não utilização e da utilização indevida ou abusiva de medicamentos em, pelo menos, 25%".
  • "O princípio constitucional de que o Serviço Nacional de Saúde tem gestão descentralizada e participada (Artigo 64º, nº4) está ainda longe de aplicação suficiente".
  • "A despesa per capita com medicamentos [em Portugal] é, também, elevadíssima quando comparada com a de outros países europeus, como se conclui com base em dados do Infarmed . (...) Por isso, mal se compreenderá que, entre nós, aquele mesmo caminho de redução dos custos com medicamentos possa ser entravado por interesses corporativos, mesmo que estes se apresentem sob a capa de sérias razões de natureza científica que, verdadeiramente, não existem".
  • "(...) propostas de aumento generalizado dos co-pagamentos pelas famílias no momento da prestação de cuidados pelo S.N.S., acentuariam a já existente falta de equidade. (...) Por outro lado, a alternativa desses co-pagamentos por acto médico serem graduados consoante os rendimentos das pessoas, consubstancia uma opção de desvio ao princípio geral do pré-pagamento pela via da tributação, considerado o mais equitativo e eficiente , pois, neste caso, é o rico que subsidia o pobre e o saudável o doente".
  • "(...) a arquitectura e a gestão dos sistemas de saúde são um elemento nuclear na promoção do bem-estar individual e colectivo, pelo que devemos estar atentos à observação das suas tendências de evolução, para que, atempadamente, se previnam e atalhem os erros já cometidos e, prontamente, se restabeleça a marcha na boa direcção".
(*) Correcção em 2.9: o documento tem já uns meses. Foi agora 'repescado' pela agência Ecclesia, provavelmente pela actualidade que readquiriu, com algumas das recentes medidas anunciadas pelo Governo.