sábado, 24 de fevereiro de 2018

Músicas que falam com Deus (39): o sublime canto moçárabe


Este disco abre com duas peças sublimes: um Pacem meam do vobis e o responsório Surgam et ibo. Mas poderíamos juntar as restantes, com destaque para o Gloria, as Lamentações ou a Oração, de Jeremias, que fazem do disco uma obra de beleza ímpar, fundada na tradição do canto dos moçárabes – os cristãos que viveram na Península Ibérica sob o domínio muçulmano.
É essa música, de que raros manuscritos se guardaram, que aqui se tenta recuperar. É mais um exemplo do vastíssimo labor que Eduardo Paniagua vem dedicando à salvaguarda desse património tão rico e diversificado quanto desconhecido e que abarca a música de inspiração islâmica, judaico-sefardita, cristã (aqui, com predominância para as Cantigas de Santa Maria, de Alfonso X, o Sábio) ou profana.
Um trabalho de que Paniagua deu uma pequena mostra no concerto de Natal que fez no Centro Ismaili, em Lisboa, em Dezembro último, e que é fundamental conhecer. 

Título: Canto Visigótico-Mozárabe – Santiago y la Antígua Liturgia Hispana
Intérpretes: Ensemble Musica Antigua; dir. Eduardo Paniagua
Edição: Pneuma

(Texto publicado no número de Fevereiro de 2018 da revista Além-Mar)

Tolentino Mendonça no retiro ao Papa e à Cúria: a sede e a aprendizagem do espanto



Foto reproduzida daqui

Terminou ontem, dia 23, o encontro de exercícios espirituais de Quaresma, orientados pelo padre José Tolentino Mendonça, para o Papa e os responsáveis da Cúria Romana. Ao longo da semana, na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, foram sendo publicadas notícias com os resumos das diversas meditações do padre Tolentino. Aqui fica um curto itinerário por excertos dessas sínteses, com as respectivas ligações electrónicas onde se podem encontrar as notícias na íntegra:

Primeira meditação: Aprendizes do espanto

(...) Jesus que, sentado no poço, pede à samaritana “dá-me de beber”, maravilha-nos, deixa-nos desarmados pelo espanto. Um judeu que fala com uma mulher da Samaria, habitada por dissidentes com os quais os judeus não estavam de acordo, surpreende-nos como Jesus que se dirige a nós para nos pedir: “Dá-me aquilo que tens. Abre o teu coração. Dá-me o que és”. (...) o pedido de Jesus provoca em nós perplexidade e desconcerto, porque “somos nós aqueles que vão beber” do poço, e sabe-se que a sede é fadiga e necessidade. Jesus está cansado da viagem e está sentado junto ao poço. E no Evangelho aqueles que estão sentados para pedir são os mendigos. Também Jesus mendiga, o seu corpo «experimenta o cansaço dos dias: desgastado pelo cuidado amoroso pelos outros». Não é só o ser humano que é mendigo de Deus. «Também Deus é mendigo do ser humano.»

Segunda meditação: A ciência da sede

(...) A última frase pronunciada por Jesus no livro do Apocalipse é um convite: «Quem tem sede, venha». (...) Jesus promete-nos saciar a sede quando reconhecemos que somos «incompletos e em construção». Ele sabe quantos são os obstáculos que nos travam e quantas são as «derivas que nos retardam». Estamos «tão próximos da fonte e andamos tão longe». No desejo e na sede estão dois sentimentos em contraste: a atracão e a distância, o ardor e a vigilância. Por isso a pergunta a colocar é: desejamos Deus? Sabemos reconhecer a nossa sede? Damo-nos tempo para a decifrar? (...)
Se tivéssemos de contar a parábola da nossa sede, prosseguiu, talvez emergissem os traços de Jean, o protagonista masculino de “A sede e a fome”, de Ionesco. É uma figura devorada por um «infinito vazio», por uma inquietação que nada parece poder aplacar e que o torna num «homem sem raízes, nem casa, incapaz de criar laços, perdido no vazio do labirinto em que escuta apenas o rumor solitário dos próprios passos». (...)
O consumismo, hoje, não é apenas material, é também espiritual, e o que se diz de um ajuda a compreender o outro. O facto é que as nossas sociedades, que «impõem o consumo como critério de felicidade, transformam o desejo numa armadilha»: de cada vez que pensamos apagar a nossa sede numa «montra», numa «aquisição», num «objeto», a posse comporta a sua desvalorização, e isso faz crescer em nós o vazio. O objeto do nosso desejo é um «ente ausente», é um «objeto sempre em falta». Por isso, «o Senhor não cessa de nos dizer: “Quem tem sede, venha; quem deseja, beba gratuitamente a água da vida”».

Terceira meditação: Dei-me conta de estar com sede

(...) «Construímos um fenomenal castelo de abstrações. Não é por acaso que a teologia dos últimos séculos se deteve tanto tempo a debater as questões levantadas pelo Iluminismo e se tenha afastado das colocadas, por exemplo, pelo Romantismo, como as da identidade, coletiva e pessoal, do emergir do sujeito ou do mal de viver. (...)
«O desejo humano diferencia-se do desejo dos animais», e ser humano significa «sentir que a existência depende deste reconhecimento mais do que qualquer outra coisa». Este anseio é mortificado nas sociedades capitalistas, que exploram avidamente as compulsões de satisfação de necessidade induzida, removendo a sede e o desejo tipicamente humanos.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A Quaresma serve para (mudar) alguma coisa?



Depois de uma sexta-feira de jejum pela paz, o Cristo-Rei, de Almada, 
ficará este sábado “pintado” de vermelho, 
para recordar os cristãos perseguidos (foto reproduzida daqui)





Não disparar onde haja crianças, Stop.
Na glória não necessitamos de mais anjos.
(Gloria Fuertes, “Telegrama Celestial para Lugares Conflituosos”, in Dios Sabe Hasta Geometria, ed. PPC. Madrid)

A iniciativa proposta pelo Papa para hoje, de jejuar pela paz (e nomeadamente, pelos povos do Congo e Sudão do Sul, especialmente martirizados nos últimos meses), coincide com a sexta-feira da primeira semana da Quaresma, como o próprio Papa Francisco referiu. Este é um tempo, portanto, em que os cristãos são convidados a um exercício mais intenso de reflexão e oração em ordem à mudança de vida.
Comentando um dos textos da liturgia católica de Domingo passado, o teólogo e assistente pastoral Joaquim Nunes, que vive e trabalha na Alemanha, escrevia no seu blogue precisamente sobre essa perspectiva da mudança de vida: “Seria bom que as nossas práticas de quaresma e as mensagens de quaresma que produzimos não esquecessem esta mensagem da ‘velha’ aliança que é hoje mais nova do que nunca: somos testemunhas do amor de Deus que nos salva de graça e não precisa das nossas penitências e continências para gostar de nós; e esta salvação é mesmo para todos. Nós é que podemos precisar delas para continuar a viver de maneira sustentável neste planeta, em fraternidade e em paz (em “aliança”) com Deus, com os outros e com criação. A quaresma propõe-nos treinos de mudança (metanoia) para uma vida neste sentido…” (texto disponível na íntegra aqui; o blogue tem este endereço).
Na Quaresma, os católicos são convidados a abdicar de algumas coisas que considerem supérfluas e, com o dinheiro que gastariam, ajudar outras pessoas e causas que mais necessitem. Cada diocese destina, depois, o fruto dessa renúncia quaresmal para um fim determinado. Neste ano, várias dioceses apoiarão as vítimas dos incêndios de 2017 e os cristãos perseguidos em diversos países e regiões do mundo, como resume esta notícia da Rádio Renascença.  
Precisamente para recordar os cristãos perseguidos, a imagem do Cristo-Rei, em Almada, e a Basílica dos Congregados, em Braga, serão neste sábado, 24, iluminadas de vermelho, numa ideia dinamizada pela Ajuda à Igreja que Sofre, que segue idênticas iniciativas que já “pintaram” de vermelho o Coliseu de Roma ou diversas igrejas em Mossul (Iraque) e Alepo (Síria). O patriarca da Igreja Católica dos caldeus, Louis Sako, enviou uma mensagem de agradecimento aos portugueses que têm ajudado a reconstruir as casas de muitos cristãos do seu país, destruída por anos de guerras na região.
Mas servem a Quaresma e a renúncia quaresmal para mudar alguma coisa? Sobre a renúncia quaresmal, escrevi há dez anos na Ecclesia um texto, questionando alguns dos destinos dados aqueles fundos, que acabam por ficar para projectos da própria diocese ou de estruturas internas da Igreja. Como há sempre algumas dioceses que dirigem o dinheiro para causas mais “interiores”, penso que essa reflexão se mantém válida. O texto pode ser lido aqui.

Dâmaso Lambers (1930-2018): viver para acordar consciências





O padre Dâmaso Lambers, numa foto reproduzida na página da Renascença

Viveu entre presos, pobres, acções de evangelização e a rádio, depois de ter sobrevivido ao nazismo, na Holanda, onde nasceu. O padre Dâmaso Lambers, conhecido pela sua acção nas prisões e pelos programas que manteve na Rádio Renascença, morreu esta quinta-feira, 22, em Lisboa, como noticia este obituário publicado de Filipe Avillez na página da Rádio Renascença.
O corpo do padre Dâmaso está esta sexta-feira em câmara ardente, na Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica. O funeral realiza-se amanhã, sábado, às 10h30.
Neste outro texto, uma entrevista de vida feita por Marta Grosso, o padre Dâmaso contava ter pago por antecipação o seu próprio funeral, há muitos anos, para ser cremado, por não querer “incomodar ninguém” e preferir “servir” as pessoas”.
Nascido na Holanda a 9 de Junho de 1930, Hermano Nicolau Maria Lambers veio para Portugal em 1957. Nessa época, em plena ditadura salazarista, não se conformava com um sistema que considerava ter adormecido os portugueses. Foi, por isso, um despertador permanente da fé cristã junto de muitas outras pessoas, nos meios onde trabalhou, incluindo o movimento dos Cursilhos de Cristandade, a rádio, alguns bairros pobres e degradados de Lisboa.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Um jejum contra a violência e as fotos do purgatório dentro da igreja




(foto reproduzida daqui)

O Papa Francisco convocou para esta sexta-feira, dia 23, um jejum pela paz e, em especial, pelas populações da República Democrática do Congo e do Sudão do Sul, tendo em conta a “trágica continuação de situações de conflito em diversas partes do mundo”.
Ao convidar os crentes (incluindo “os irmãos e irmãs não católicos e não cristãos” com as “modalidades que considerarem mais oportunas”) para um dia de “oração e jejum”, o Papa acrescentou que cada pessoa se deve perguntar, na sua própria consciência: “O que posso eu fazer pela paz?” E acrescentou: “Certamente podemos rezar; mas não só. Cada um pode dizer concretamente ‘não’ à violência naquilo que depender dele ou dela. Porque as vitórias obtidas com a violência são falsas vitórias; enquanto trabalhar pela paz faz bem a todos!”
Na sua mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa explica precisamente o sentido do jejum, relacionando-o com o fim da violência: “o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.”
Como proposta de oração para este dia de jejum, a Cáritas Portuguesa convidou um conjunto de instituições e movimentos católicos a redigir uma Via-Sacra que servisse de meditação para este dia. “Esta iniciativa resultou, primeiro, num gesto simbólico de união entre aqueles que têm por missão a evangelização e a erradicar a pobreza; segundo, num texto com um alinhamento diversificado que vive da identidade de cada uma destas organizações.” O texto está disponível aqui.
 
A propósito da violência que não se limita às guerras declaradas, merece também referência a iniciativa da Igreja Católica que, nas Filipinas, juntou aos objectivos de uma tradicional Marcha pela Vida a luta contra os assassinatos suspeitos, a declaração da lei marcial no sul do país ou a ideia de restabelecer a pena de morte. Numa semana em que assistimos a um dos mais graves massacres na guerra da Síria e a um novo massacre de jovens numa escola dos Estados Unidos, vale a pena reparar na forma como os católicos de um país se mobilizam contra a instalação de uma “cultura de violência”, como referiu o bispo Broderick Pabillo.
Uma forma de alertar consciências contra outras violências que a Europa está a infligir a muitas pessoas que no continente buscam refúgio, é aquela que propõe a paróquia da Vera-Cruz, em Aveiro: até 4 de Março, dentro da igreja paroquial, os fiéis e muitos visitantes que ali entram serão surpreendidos pelas fotografias de Ricardo Lopes feitas em campos de refugiados.
Grécia: o Purgatório Europeu, pretende mostrar “rostos, a preto e branco, cenas do quotidiano do sofrimento de quem é esquecido”. E os objectivos, como explica o pároco, padre João Alves, são mesmo o de “incomodar quem ali está ou passa, ajudar à relação entre a Eucaristia e a caridade, porque este ano é dedicado à caridade, e percebermos que a paróquia tem uma fraca sensibilidade sócio-caritativa da comunidade celebrante”. Uma reflexão mais para este tempo, como se pode ler nesta notícia.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

“Uma efectiva conversão ecológica” para Cuidar da Casa Comum

“Promover nas comunidades cristãs e nos respectivos espaços (paróquias, escolas, obras e movimentos) uma efectiva conversão ecológica e sugerir caminhos de actuação concreta com vista a uma ecologia integral” é um dos objectivos a que se propõe a rede Cuidar da Casa Comum, que será apresentada publicamente esta sexta-feira, dia 23, no salão paroquial do Campo Grande (Lisboa), a partir das 21h30.
A rede, que tem já uma página na internet, pretende reunir instituições, organizações, obras, movimentos católicos e de outras igrejas cristãs, bem como pessoas a título individual, propondo-se “aprofundar e difundir”, no âmbito daquelas organizações, a encíclica Laudato si’ – Sobre o cuidado da casa comum, publicada em Maio de 2015 pelo Papa Francisco.
“Acompanhar, no espaço eclesial, as questões ecológicas de âmbito nacional e mundial, evidenciando as suas causas e consequências e equacionando-as à luz da encíclica, de modo a promover a tomada de consciência colectiva acerca da sua relevância e urgência”, é outro dos objectivos da rede.
Criada numa perspectiva ecuménica, a rede Cuidar da Casa Comum pretende promover sessões de esclarecimento e sensibilização, fomentar “focos de cuidado da casa comum” (grupos locais empenhados na promoção de uma ecologia integral), incentivar “a reflexão sobre estilos de vida pessoal e colectiva, partilhar testemunhos de gestos e comportamentos de ecologia integral, fazer pontes com iniciativas relevantes que ocorram no espaço eclesial e na sociedade civil”.
O aprofundamento e difusão da “teologia da Criação” e a celebração em comum do Dia da Criação são outras das propostas da rede.
A rede inclui uma comissão de apoio teológico e científico, que reúne professores de Teologia, ambientalistas e cientistas.
Sobre a rede, Manuela Silva, economista, responsável da Fundação Betânia e principal dinamizadora da iniciativa, descreve nesta entrevista as suas intenções mais importantes.
Em França, um projecto denominado Igreja Verde, surgido durante o ano passado, propõe-se também promover a ideia da conversão ecológica e dinamizar práticas de sustentabilidade e comportamentos ambientalmente responsáveis nas estruturas, organizações e movimentos das igrejas Católica, Protestantes e Ortodoxas.

Ponto SJ: um portal dos jesuítas para o debate num “clima temperado”

Ponto SJ é o nome do novo portal dos jesuítas, que nasce esta sexta-feira, dia 23, pretendendo propor um espaço de debate feito num “clima temperado”. O portal ficará disponível neste endereço, a partir das 8 horas desse mesmo dia.
No próprio dia do lançamento do Ponto SJ, haverá uma sessão no Café-Teatro da Comuna, em Lisboa, a partir das 18h, proposta de dois “encontros improváveis – duas pessoas que, à partida, “teriam menos oportunidades de se juntar para debater ideias”. Um reúne o cronista João Miguel Tavares e o padre jesuíta Francisco Mota; no outro, encontram-se Marisa Matias, eurodeputada do Bloco de Esquerda, e a Irmã Júlia Bacelar, que trabalha com mulheres vítimas de violência.
Estas conversas foram precedidas de encontros em que cada pessoa foi desafiada a conhecer o trabalho da outra, fazendo o exercício de se colocar no lugar dela. O provincial dos jesuítas em Portugal, padre José Frazão Correia, estará também presente.
Afirmando-se como “um espaço de reflexão, opinião e comentário que contribuirá para o enquadramento de temas pertinentes da atualidade em áreas como Política, Fé, Justiça, Cultura e Educação”, o portal pretende, essencialmente, “promover o diálogo no espaço público”, como diz o seu director, o padre José Maria Brito (de quem se pode ler aqui uma entrevista a propósito da iniciativa).
Diariamente, haverá comentários de temas de actualidade ou propostas de pistas de reflexão sobre aquelas cinco áreas temáticas. Guilherme de Oliveira Martins, Joaquim de Azevedo, Clara Almeida Santos, Carla Quevedo, Jacinto Lucas Pires, Joana Rigato, Alfredo Teixeira, Isabel Allegro de Magalhães, Margarida Alvim e a irmã Irene Guia, que actualmente trabalha com refugiados no Curdistão, são alguns dos nomes que colaboram no novo portal e que inclui também vários padres jesuítas. 
Num tempo “em que a possibilidade de diálogo aberto e construtivo, capaz de assumir positivamente a pluralidade, está afectada pelo uso de uma linguagem populista, extremada e excessivamente identitária, que impede a escuta e a disponibilidade para compreender a posição do outro”, o Ponto SJ quer assumir-se como um espaço que promova “um clima temperado”, no qual seja possível “conversar e olhar para a realidade com largueza de horizonte e espírito crítico” e, ao mesmo tempo, fazendo a ponte com esferas e grupos diferentes e mais distantes da Igreja.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Cuidar o Futuro: a herança política Maria de Lourdes Pintasilgo


Livro/Agenda

Mesmo se já é utilizada de vez em quando, “cuidar” é uma expressão (e uma acção) ainda pouco comum na linguagem política. Mas era com esse verbo que Maria de Lourdes Pintasilgo procurava sintetizar a forma como deveriam ser olhados os problemas que afectam a humanidade – da pobreza à insegurança, da saúde ao ambiente, passando pelos direitos mais elementares.
A expressão ficou consagrada no relatório Cuidar o Futuro, da Comissão Independente para a População e Qualidade de Vida, presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo, naquele que foi um dos seus últimos grandes trabalhos. Editado inicialmente em 1998, mas há muito esgotado, o texto do relatório foi agora reeditado pela Fundação Cuidar o Futuro. Quinta-feira próxima, dia 22, às 18h30, terei todo o gosto de fazer uma apresentação do texto, no Terraço, do Graal (Rua Luciano Cordeiro, 24 – 6º A), em Lisboa (a sessão inclui uma refeição ligeira, com o custo de três euros; as inscrições devem ser feitas até dia 20, terça, para o endereço graallisboa@gmail.com ou o telefone 213 546 831).
Fruto do prestígio, da cultura, da criatividade e da participação em dinâmicas internacionais daquela que foi até hoje a única primeira-ministra portuguesa, o relatório introduz a noção de cuidado na acção política, que seria retomada, em Maio de 2015, na encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, e em outros documentos de acção política e ambiental.
A noção de cuidado talvez não pudesse figurar num relatório desta natureza se a composição da comissão internacional que o elaborou não tivesse sido paritária. Mas era a partir daquele conceito que a antiga primeira-ministra portuguesa defendia algumas das ideias fundamentais do seu pensamento e também do trabalho da Comissão Independente para a População e Qualidade de Vida: a importância de um novo contrato social que envolva a sociedade civil; a necessidade de uma concepção da política que implique não apenas a liberdade mas também a responsabilidade; e um novo conceito de educação e um papel cada vez mais autónomo e relevante para as mulheres.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Emily Dickinson a falar ao Papa Francisco, através de Tolentino Mendonça, sobre a água que a sede ensina


José Tolentino Mendonça (foto agência Ecclesia, reproduzida daqui)

Dizia a poetisa Emily Dickinson que “a água é ensinada pela sede”. Comenta, agora, o padre José Tolentino Mendonça, que “quando acolhemos verdadeiramente o desafio da sede, percebemos que a coisa mais importante não é propriamente satisfazê-la, mas interpretá-la, aprofundar-lhe o significado, intensificá-la, levá-la mais longe. A sede, por si própria, é um património espiritual.”
As palavras do padre e poeta português estão em entrevistas ao L’Osservatore Romano e ao portal de notícias Vatican News, a propósito dos Exercícios Espirituais de Quaresma que, neste momento (18h em Roma, 17h em Lisboa), começam nos arredores de Roma, com a participação do Papa e de muitos dos responsáveis da Cúria Romana. “Devemos ter a coragem de assumir a sede como mestra nos caminhos da alma”, diz Tolentino Mendonça, que citará também outros poetas, escritores e artistas nas suas reflexões, entre os quais Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Antoine de Saint-Exupéry ou Tonino Guerra. Uma síntese da da entrevista em português pode ser lida aqui e a versão integral em áudio pode ser escutada aqui.
Neste outro texto, o próprio Tolentino Mendonça antecipa algumas das ideias do retiro que esta tarde começa em Ariccia. Aqui pode encontrar-se o roteiro deste retiro que se prolonga até sexta-feira, também resumido nesta notícia.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

90 anos de Pedro Casaldáliga: o bispo da “absurda” Esperança



Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix de Araguaia, Mato Grosso, Brasil
(foto reproduzida daqui)

Há pouco mais de 46 anos, o convite para a celebração de ordenação de bispo de Pedro Casaldáliga, então missionário dos padres claretianos no Brasil, dizia, com estas palavras em forma de poema:
Tua mitra
será um chapéu de palha sertanejo;
o sol e o luar; a chuva e o sereno;
o olhar dos pobres com quem caminhas
e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.
Teu báculo
será a verdade do Evangelho
e a confiança do teu povo em ti.
Teu anel
será a fidelidade à Nova Aliança
do Deus Libertador
e a fidelidade ao povo desta terra.
Não terás outro escudo
que a força da esperança
e a liberdade dos filhos de Deus
nem usarás outras luvas que
o serviço do Amor.
Ontem, 16 de Fevereiro de 2018, o bispo emérito de São Félix do Araguaia (Mato Grosso, no centro do Brasil, a sul da região amazónica) completou 90 anos de vida e uma celebração eucarística assinalou o facto. Uma vida em grande parte dedicada a fazer daqueles votos de consagração um horizonte de acção evangélica, através da defesa e da experiência de um cristianismo servo e pobre, dedicado à protecção dos mais pobres e desfavorecidos. Uma vida que levou a sério a promessa-convite da sua ordenação episcopal, tendo-se sempre recusado a usar símbolos que, na sua perspectiva, falavam mais do poder do que do serviço.
Não foi fácil a vida de Pedro Casaldáliga. Nascido Pere Casaldàliga i Pla, em Balsareny, na província catalã de Barcelona (Espanha), a 16 de Fevereiro de 1928 e emigrado para o Brasil, em 1968, como missionário da sua congregação, os padres claretianos, viria a sofrer várias ameaças de morte (numa das ocasiões, teve mesmo de se esconder, como Fernando Alves evocava na TSF em Dezembro de 2012), esteve várias vezes para ser expulso do Brasil durante a ditadura militar, sofreu incompreensões de algumas estruturas eclesiásticas, teve posições que muitas pessoas não entenderam. Mesmo assim, persistiu na sua forma de estar. 

No Brasil, com o Pacto das Catacumbas
Em 1968, chegado ao Brasil, o padre Casaldáliga encontrou no Mato Grosso uma região marcada pela imensa miséria e analfabetismo, pelo poder dos grandes latifundiários e por assassinatos frequentes dos líderes e das populações indígenas ou rurais.
Nomeado administrador apostólico de São Félix em 1970 e bispo no ano seguinte, recebeu a ordenação episcopal em Outubro de 1971. Na sua actividade episcopal, aderiu ao Pacto das Catacumbas, um documento assinado por vários bispos que tinham participado no Concílio Vaticano II, e que se comprometiam a viver de forma despojada e servindo o anúncio do Evangelho entre os mais pobres. O Pacto é uma das etapas fundamentais que levará ao aparecimento de líderes como o Papa Francisco.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Integrar a fragilidade, refazer a vida inteira




O padre António Pedro em 2015, no Hospital de Santa Maria (Lisboa); 
actualmente, exerce funções de capelão hospitalar no Hospital de Santa Marta 
e Maternidade Alfredo da Costa, também em Lisboa
 
A criadora da noção de cuidados paliativos dizia que “quando já não há nada a fazer, está tudo por fazer”. O padre António Pedro Monteiro, 31 anos, assistente religioso no maior hospital do país, diz que, perante o sofrimento, importa construir um caminho que integre a fragilidade e devolva a saúde pelo perdão de si mesmo e dos outros. E o padre Augusto Cima, 78 anos, manifesta-se muito crítico na falta de profissionalismo no acompanhamento dos doentes feito pelas estruturas católicas (o Dia Mundial do Doente foi assinalado Domingo passado) – ver no final ligação para uma entrevista na TSF.

Quando chega junto de uma das camas, o padre António Pedro ajoelha. Vai conversar com uma doente que chamara alguém da capelania do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Durante dois ou três minutos permanece ajoelhado, pouco mais do que escutando, entre silêncios.
O pouco que vai dizendo aponta para o presente e o futuro, para a alta que estará próxima, depois de oito meses de internamento, tratamentos e outros sofrimentos. A cena inverte o quadro habitual. “Importa mais escutar Deus que está no outro do que catequizar sobre Deus ou catequizar o próprio Deus”, responderá, quando perguntado sobre tal gesto.
Nascido a 12 de Setembro de 1983, em Vizela (diocese de Braga), António Pedro Monteiro é padre do Sagrado Coração de Jesus (dehoniano) desde 26 de Setembro de 2010. Faz parte da equipa de três padres e um diácono que, diariamente, presta serviço de assistência religiosa, em nome da Igreja Católica, no maior hospital do país.
Uma semana antes de ter sido desafiado a fazer esse trabalho, em 2012, estava António Pedro na Madeira. Contactara todas as escolas da ilha, trabalhava num seminário, numa escola de enfermagem e num lar de idosos. Ao fim de dois anos, sentia que começava a “coser várias pontas”. Foi quando o superior provincial lhe confidenciou a possibilidade de um novo projecto pastoral: o patriarca D. José Policarpo pedira um capelão em Santa Maria, mas não sabia como responder. Nesse momento, nem um nem outro imaginavam que, três semanas depois, o diálogo ganharia um sujeito com António Pedro.

O outro como lugar teológico

Aqui está agora, de bata branca, acorrendo a quem chama – chegam à capelania uma média de 60 pedidos de assistência espiritual por semana. “No hospital, temos de ser não só antenas, mas patenas”, foi o que aprendeu na formação. “Se olhamos a pessoa doente como coitadinha e carente do que tenho para dizer-lhe, encaixamos no modelo anterior de assistência, que se propunha dar sacramentos e levar uma catequese preparada. Se trato a pessoa com dignidade e singularidade, e tento ver nela o rosto de Jesus, como propõe o texto de Mateus 25, então aprendemos que Deus está nessa fragilidade.” Mais do que ir junto dessa pessoa para falar de Deus, acrescenta, importa ter presente que se vai ter com o próprio Deus de Jesus: “A mim o fizestes.”